Ideias para Debate

Wednesday, August 03, 2005

Para além...

O Manuel Mangue mandou-me, já há uns dias, o texto que publico abaixo. Por qualquer razão convenci-me que já o tinha incluido no blog e só agora descubro que não.
Que me desculpe o autor esta falha involuntária.
Aqui vai o texto:

Para além do “deixa andar”

Falava com um amigo que o tal “espírito” esconde, talvez, uma falácia, em que muito mais do que se deixa andar é o que não se deixa andar no nosso país - deliberadamente ou como conseqüência.

Mas o que me leva a estas escritas é um outro aspecto. É o facto de que, não só neste espaço mas também em outros, parece que, cada vez mais, se estabelece um consenso quanto aos motivos do tal “espírito”; estabelece-se uma relação entre os baixos salários (a falta de motivação, na seqüência, etc.) e o já tão explorado espírito do “deixa andar”; estabelece-se uma espécie de causalidade mecânica que, a meu ver, deturpa a busca de soluções para a questão.

Penso que há dois aspectos que seriam relevantes para a abordagem deste fenômeno (ou de qualquer outro). Por um lado, a questão da abstração. Ou seja, em que um determinado fenômeno, sob a influência de alguns elementos do ambiente, mantém as suas principais características e propriedades. Entretanto, importa observar que isso acontece até certo ponto; até um certo limite. Isto é, enquanto é influenciado - e a semelhança dos signos - sofre o processo de degenerescência: depois do limite o fenômeno não é mais o mesmo ou, como em muitos casos, sobra apenas a sua face cosmética, por assim dizer.

O problema está, justamente, quando se interpretam os acontecimentos a partir desses derivados.

Mas o que mais interessa neste assunto é o segundo aspecto, relacionado à (falsa) causalidade. Ou seja, se por um lado, o fumo pode “causar” cancro do pulmão; por outro, temos pessoas que fumam, mas não desenvolvem o cancro; e, por um terceiro lado, pessoas que não fumam e, no entanto, desenvolvem esse cancro. Isso evidencia que algum outro elemento (além do fumo) contribui de forma decisiva para que apareça a doença. Isso exige uma análise um pouco mais aguçada no sentido de caracterizar tal elemento que, uma vez associado ao fumo, condiciona o desenvolvimento da doença em questão.

Nesse caso, se existe uma relação de causalidade (eu falaria em predisposição) é, necessariamente, uma causalidade casada. Por outra, o fumo, por si só, não provoca a doença e depende de um outro elemento - em maior ou menor grau - para que juntas, provoquem tal efeito.

Do mesmo modo, por um lado, temos pessoas com baixos salários que “deixam andar”; por outro lado, pessoas com baixos salários que, no entanto, não “deixam andar”; e por um terceiro lado, pessoas com altos salários e que, não obstante, também “deixam andar”. Isso significa que os baixos salários não podem ser responsabilizados por esse “espírito”; estes, por si só, não o condicionam. Quando esse fenômeno ocorre, um outro elemento (necessariamente em maior grau, já que há altos salários que também “deixam andar”) condiciona esse comportamento.

Isso, entretanto, não nega a existência do baixo salário. O que se quer destacar é que este não constitui condição nem necessária, nem suficiente para o “deixa andar”. Aliás, o salário é sempre baixo, até para o Bill Gates, dizia um amigo: se fosse a depender do salário, este não seria suficiente para satisfazer as suas “necessidades” (chamaria desejos) básicas.

Portanto, mais do que os baixos salários, vivemos, hoje - em toda a parte do mundo ocidental e em pior grau nos nossos países – sob os domínios do monopólio privado da cultura (no seu sentido mais amplo). Ou seja, vivemos, hoje, um liberalismo econômico (tardio) fruto de um pensamento liberal que o antecede e em que tudo se simplifica e se materializa; em que o modo de estar, as expressões, os pensamentos, etc., tudo se transforma em grandeza mercadológica; em que os hábitos e costumes estão a serviço da obrigatoriedade pragmática de “fazer dinheiro”.

Já que falamos em espíritos, paira subjacente ao do “deixa andar” um espírito subtraído, esvaído, e que sucumbe ante os mecanismos de “fazer dinheiro”. Com isso, pouco ou nada mais interessa: um extra para cá; uma “luva” pra lá, sejam em altos ou baixos salários. É uma prática que organiza a si mesmo e desorganiza todo o resto. Isso é, hoje, um estilo de vida, cujo auge coincide com o aniquilamento de todas as outras dimensões coletivas: um mundo de missão e moral mínimas.

Hoje, é caso de manchete no jornal (se não é, deveria), fazer uma viagem, ter que parar por falta de água no radiador e não ouvir “quanto é que vais me pagar”. Hoje, as crianças já negociam para ir à padaria e, quem diria, até para ir à escola... (a moeda às vezes varia, da periferia para a cidade, mas a lógica é a mesma).

Invocar o baixo salário, por ele mesmo, como causa do “deixa andar” é um ludíbrio, na medida em que vem suplantar (ao mesmo tempo em que antecipa) uma forma de pensar e viver que numa abordagem direta não seria aprovada pela sociedade. À sombra, entretanto, torna absoluto um estilo de vida que, a partir dos derivados do baixo salário e da pobreza, tudo justifica quando se trata de “fazer dinheiro”, especialmente quando é para fazer “mais dinheiro”. Enfim, estabelece-se um estilo de vida em que a única forma válida de pagamento é a monetária.

Esse é, em maior grau, o outro elemento.

Depois vem o papel do esquecimento. Isto é, com o tempo reclamaremos cada vez mais da violência porque esquecemo-nos de que a abstração desse processo é, justamente, o aniquilamento da própria condição humana, reduzindo-o a um Hércules instintivo (que pensa, mas não reflete; a face cosmética, portanto) e monetário.

Isso pode ser combatido pela coerção, via Governo-Estado. Mas e o papel da consciência? o papel do Eu-Estado? Será que não estaremos numa fase em que o “deixa andar”, pelo contrário, predispõe os baixos salários?

Acho que há uma responsabilidade individual que precisa ser assumida nesta questão. Caso contrário, será apenas uma falácia. Quanto à responsabilidade individual, quantos professores universitários, por exemplo, deixariam de ser vulgos “picaretas bem pagos” para tornar máximas a missão e moral de docência, ao invés de regurgitar, de canto a canto, fórmulas feitas?

Lembrando que, mais cedo ou mais tarde, “pau que bate no Chico, dói no Francisco”.

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